Quando falamos em acessibilidade para pessoas com deficiência, geralmente pensamos nas barreiras físicas (como escadas ou calçadas irregulares) e de comunicação (que afetam a audição, fala, leitura, escrita e/ou compreensão). Mas essa população enfrenta diversos outros obstáculos que as impedem de se deslocar, comunicar e, principalmente, viajar com independência e dignidade. Alguns deles, apesar de não serem físicos, são estruturais e exigem a construção não de rampas, mas de uma nova sociedade.
Pessoas e turistas com deficiência: acessibilidade além dos números
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada seis pessoas em todo o planeta vive com algum tipo de deficiência. No Brasil, são quase 20 milhões de pessoas com deficiência, segundo dados do IBGE. Apesar de representarem quase 10% da população do país, essas pessoas e, principalmente, suas vivências e desafios, ainda são invisibilizados por estudos, pelo poder público e pela sociedade como um todo. A pesquisa que quantificou esse público, por exemplo, foi realizada em 2022 e foi a primeira a trazer dados específicos sobre pessoas com deficiência.
No turismo, mais da metade das pessoas com deficiência já deixou de viajar por falta de acessibilidade. A maior parte desse público é mulher, tem entre 21 e 40 anos, e possui uma renda de até 1 salário mínimo, de acordo com o documento “Turismo Acessível: Mapeamento do perfil do turista com deficiência”, do Ministério do Turismo em parceria com a Unesco. Do outro lado, na oferta turística, o mesmo estudo identificou 276 empreendimentos, produtos e serviços acessíveis em todo território nacional.

Cadeira anfíbia na Praia Azeda, Búzios, durou apenas 7 meses | Foto: Prefeitura de Búzios
Esse número, além de extremamente baixo — em comparação com os 171 mil prestadores de serviços turísticos registrados no Cadastur em 2024 — pode ser ainda menor. Um exemplo é o da Praia Azeda, em Búzios (RJ), que recebeu o título de “praia acessível” após a construção de uma rampa e aquisição de cadeiras anfíbias, que possibilitam o banho de mar para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Sete meses após a “conquista”, a praia já estava sem as cadeiras. O banheiro para banhistas que frequentam a praia, incluindo as pessoas com deficiência, não acompanhou o projeto e nunca foi adaptado: sem cabine para cadeirantes e com um degrau enorme logo na entrada (foto abaixo).

Banheiro da Praia da Azeda, Búzios (RJ)
Barreiras além das físicas: a acessibilidade social
Escadas, calçadas desniveladas e semáforos sem aviso sonoro são apenas parte dos obstáculos enfrentados por pessoas com deficiência. O menor acesso à educação e a baixa inserção no mercado de trabalho são as principais barreiras dessa população no Brasil. Comparado às pessoas sem deficiência, as pessoas com deficiência têm uma taxa de analfabetismo quatro vezes maior e um rendimento 30% inferior, apesar de poderem ter um custo adicional de até 14 vezes a renda familiar. Portanto, falar sobre acessibilidade nas viagens é falar sobre inclusão social e econômica.
As viagens ainda são artigo de luxo para muitas pessoas. Um estudo da Serasa Experian revelou que apenas 10% da população brasileira têm perfil de viajante. Em 2023, por exemplo, a ausência de viagens foi realidade em 80% dos lares brasileiros. A pesquisa levou em consideração o comportamento de compra e o perfil socioeconômico do brasileiro e, apesar de não considerar dados sobre pessoas com deficiência, esse deve ser um cenário que se repete para essa parcela da população. Pensando nos turistas com deficiência, é fato que esse grupo tem um rendimento menor e temos que levar em consideração que essas pessoas podem precisar de serviços especializados, tecnologia assistiva e assistência pessoal, o que contribui para um aumento significativo dos gastos e pode tornar a viagem uma possibilidade ainda mais distante.

Conexões para um turismo mais acessível e inclusivo
Um dos grandes pontos para um turismo com mais acessibilidade e inclusão é a conexão entre políticas públicas, serviços turísticos e os territórios. No Brasil, as pessoas com deficiência de baixa renda podem viajar gratuitamente entre os estados da federação através do Passe Livre. Apesar dessa grande conquista, as empresas são obrigadas a reservar apenas dois assentos por veículo e passagens de avião não estão incluídas no programa.
No transporte aéreo, o que está definido pela ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil) é um desconto de até 80% na passagem do acompanhante — válido apenas em casos específicos (uso de maca/incubadora, deficiência intelectual grave ou necessidade constante de auxílio).
Pensando em políticas públicas para pessoas com deficiência, há um Projeto de Lei que concede 10% de desconto na diária em hotel sem acessibilidade e a legislação brasileira garante a meia-entrada em espetáculos artístico-culturais e esportivos. Contudo, em atrativos turísticos, a cobrança varia e não existem programas de gratuidade para hospedagem, alimentação e outros serviços turísticos.
Apesar de muitos atrativos cumprirem as diretrizes da acessibilidade, são inacessíveis na prática: falta transporte até o local, os entornos são inadequados e o custo torna a experiência inviável para boa parte da população com deficiência.

Caminhos para um turismo verdadeiramente inclusivo
A acessibilidade precisa ser vista como um compromisso coletivo, intersetorial e contínuo. No dia 06 de julho, a Lei Brasileira de Inclusão (ou Estatuto da Pessoa com Deficiência) completou 10 anos de existência e, apesar dos avanços e das conquistas, ainda há um grande caminho para percorrermos.
Esse precisa ser um esforço coletivo e um compromisso real entre todos os atores do turismo. Acessibilidade e inclusão são conceitos amplos, que abordam diferentes fatores e, por isso, precisam de um olhar multisetorial. É necessário que governos, empresas, profissionais e comunicadores compreendam a acessibilidade não como um “item obrigatório”, mas como um princípio básico de justiça e equidade. Só assim será possível construir um turismo verdadeiramente responsável.
Uma forma de conhecer essas diferentes vivências é acompanhando pessoas com deficiência que lidam com essas questões todos os dias, em suas viagens e fora delas. Por aqui, já indicamos comunicadores brasileiros que falam sobre acessibilidade no turismo, inclusive, com dicas para planejar uma viagem acessível trazidas pela Suelen Almeida, do Viaje com Acessibilidade. Confira também como adequar seu conteúdo turístico de forma inclusiva.
Por fim, tornar as viagens mais inclusivas é uma luta que beneficia muito mais do que as 20 milhões de pessoas com deficiência. Em um país tão desigual quanto o nosso, pensar em inclusão é garantir um direito constitucional de liberdade e bem-estar para quem mais precisa.
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