Viajante Comunitário

Rede Tucum: uma história de colaboração e resistência

Há mais de 30 anos, as comunidades do litoral cearense, vinculadas a associações de moradores e de pescadores, se organizam em luta pela defesa dos seus territórios. Com a expansão da política de turismo brasileira, intensificada nos anos 1990, essa luta se acentuou. Havia ainda o desafio de manter os modos de vida sociais e culturais, como resistência ao turismo convencional. Percebendo que não poderiam ir contra essa expansão, esses povos estudaram o fenômeno, visitando locais impactados pelo turismo convencional, para definir uma modalidade turística que dialogasse com a realidade local. Assim nasceu a Rede Tucum, uma articulação de comunidades que organizam os serviços de turismo comunitário.

O tucum exige um trabalho em grupo. Para fazer a rede de tucum, é necessário um coletivo de pessoas, pois é preciso de gente em todas as etapas de confecção dela. O tucum também é símbolo de resistência. O anel de tucum tem um sentido político, significando as lutas pela libertação na América Latina. E é isso que representa a história da Rede Tucum: a colaboração e a resistência.

STEPOrganização
A estrutura organizacional da Rede é descentralizada e é formada por assembleia, coordenação colegiada, coordenação executiva e secretaria executiva. Cada comunidade possui um grupo de turismo local. De acordo com Rosa Martins, coordenadora da Rede Tucum, ninguém externo à comunidade consegue estruturar o turismo na região. “O turismo comunitário depende muito da energia e da força da organização local”, explica.

Quinze grupos de turismo formam a Rede Tucum. No litoral oeste: Tatajuba, em Camocim; Curral Velho, em Acaraú; Caetanos de Cima, em Amontada; Assentamento Maceió, em Itapipoca; Flecheiras, em Trairi; e Tapebas, em Caucaia. Em Fortaleza, há a estrutura de hospedagem do Centro de Formação Frei Humberto e o grupo de mulheres do Conjunto Palmeiras. No litoral leste: Batoque e Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz; Prainha do Canto Verde, em Beberibe; Assentamento Coqueirinho, em Fortim; Vila da Volta, em Aracati; e Ponta Grossa e Tremembé, em Icapuí.

Diferencial da Rede Tucum

A principal característica dos grupos da Rede Tucum é a relação íntima que mantêm com seus territórios. O atrativo turístico está nos modos de vida desses povos. “É uma oportunidade que as pessoas têm de conviver com experiências ainda muito tradicionais”, detalha Rosa.

Foto: Instituto Terramar

Artesanato local em Caetanos de Cima

A turismóloga Sulamita Lino explica que, no turismo convencional, o atrativo turístico é vendido para o visitante comprar, usufruir e ir embora, diferentemente do turismo comunitário. “É claro que esse mercado e o atrativo também existem no turismo comunitário. Mas ele vai para além da compra de um produto e saída. É você chegar a um local, ser recebido e ter uma troca e também de conhecer o que está acontecendo no território”, explica.

Para as 850 pessoas que trabalham na atividade turística dentro da Rede Tucum, o turismo é importante porque ajuda na luta pelo território e promove o fortalecimento e a dinamização da renda dentro da própria localidade.

Segundo Rosa, “o turismo comunitário é aquele que as comunidades locais têm total controle sobre ele para planejar, executar e ser beneficiário direto”. Por isso, a Rede Tucum define princípios para a atividade turística, como a valorização das culturas tradicionais, o respeito à natureza, a ética, a economia solidária, o respeito entre gerações e entre comunidade e visitantes, e a colaboração entre grupos de turismo da Rede e demais parceiros.

Desafios
Como toda história de colaboração e resistência, há obstáculos a serem superados. Assim, os principais desafios da Rede são: formação contínua dos membros, necessidade de políticas públicas para melhorar acessos e infraestrutura de telecomunicações de comunidades isoladas, assegurar territórios e aprimorar a comercialização dos serviços turísticos e dos produtos demandados para a atividade turística.

Para Sulamita, hoje a Tucum é uma referência no Ceará e no Brasil. Ela acredita que a Rede passará por evolução e amadurecimento. Rosa considera que a Rede tem um potencial grande para se consolidar estrategicamente e que é preciso avançar numa política pública para o turismo comunitário no Brasil.

Rede Tucum
Endereço: Rua Pinho Pessoa, 86 – Joaquim Távora, Fortaleza-CE
Telefone: (85) 3226-2476
Facebook: https://www.facebook.com/RedeTucumTurismoComunitario

Sobre o Autor

Lívia Priscilla

Jornalista e turismóloga cearense. Amante de viagens. Para mim, viajar é conhecer e reconhecer pessoas e lugares, criando e recriando olhares sobre o mundo.

  • suelenefilgueiras

    Texto fantástico! Parabéns!