Conhecendo a Amazônia brasileira através de suas pessoas
Começamos nossa aventura pela floresta saindo de Manaus em uma embarcação voadeira e subindo o imponente Rio Negro em direção à Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro (RDS). Com uma área aproximada de 103 mil hectares, que abrange os municípios de Manacapuru, Iranduba e Novo Airão, esta RDS abriga 19 comunidades tradicionais ribeirinhas e indígenas, que se redistribuíram pela região após a invasão dos nossos colonizadores e, principalmente, depois dos últimos movimentos de ocupação da Amazônia, como o ciclo da borracha (final do século 19 e início do século 20) e a construção da Rodovia Transamazônica (na década de 1970).
Muitas dessas comunidades já têm o turismo como uma alternativa importante de renda, mas, na grande maioria dos casos, ainda encontram desafios para que ele se torne uma atividade verdadeiramente rentável e significativa para toda a comunidade. Entra aí o nosso papel como viajantes responsáveis.

Comunidade do Tumbira, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, AM | Foto: Viajar Verde
A Poranduba Amazônia, operadora de turismo responsável que trabalha com o turismo de base comunitária na região, nos convidou para visitar algumas dessas comunidades e desvendar a Amazônia através de suas pessoas – os verdadeiros guardiões da floresta. Passamos três noites hospedados na comunidade ribeirinha do Tumbira, tendo a oportunidade de conviver de perto com seus moradores, e também visitamos a comunidade indígena dos Tatuyos, além de Santa Helena do Inglês e Saracá.
Viver uma experiência 100% comunitária na Amazônia é bem diferente de se hospedar um lodge de selva (em 2023 estive em um lodge na Amazônia equatoriana). E, claro, uma experiência não invalida a outra! Ambas são incríveis! Mas foi interessante sentir como as perspectivas podem ser diferentes. E a principal diferença, acredito eu, está no contexto humano.
Por isso, queria começar dividindo com vocês um convite para revisitarmos nossa perspectiva sobre a Amazônia. A visão colonialista nos vende (até os dias de hoje) o ideal de Amazônia como um “paraíso inabitado”. No entanto, desde que foi invadida, por portugueses e espanhóis, a Amazônia sempre foi lar de milhares de indígenas.
Aprendi com Eliane Brum, no livro Banzeiro òkòtó: Uma viagem à Amazônia Centro do Mundo, o conceito de floresta habitada, que lembra que a Amazônia pode (e deve) ser preservada considerando seus moradores. Essa ideia de que a preservação só existe onde não há presença humana é conversa inventada por “gente de fora”. Afinal de contas, estamos descobrindo, antes tarde do que nunca, que os povos originários sempre souberam como conviver e preservar a natureza.
Portanto, nosso roteiro de turismo comunitário pela Amazônia com a Poranduba, além de uma linda aventura de conexão com a floresta e com seres humanos, é também um convite à desconstrução de narrativas colonialistas sobre o território e de aprendizados sobre a sua preservação.

Foto: Viajar Verde
Visitando os indígenas Tatuyos
Voltando então à nossa Amazônia habitada… Nossa primeira parada, após uma hora de navegação saindo de Manaus, foi a comunidade dos indígenas Tatuyos. Fomos recebidos pelo cacique Pinõ, que nos conta a história e as tradições de seu povo e convida os parentes para apresentarem alguns de seus principais rituais. Quando o homem branco invadiu a Amazônia brasileira, os Tatuyos se esconderam. Atualmente, há poucos registros históricos e até mesmo dados atualizados sobre eles por aqui.

Oca mãe dos indígenas Tatuyos | Foto: Viajar Verde
Hoje, a comunidade faz questão de preservar e fortalecer sua cultura. Todos, incluindo as crianças, seguem falando a língua Tatuyo. Pinõ conta que, quando alguém se muda para a aldeia para casar, precisa aprender o idioma e as tradições locais que, claro, são diferentes das outras comunidades. Muitos desses costumes são apresentados hoje nas redes sociais pela filha do cacique, Maira Gomes Godinho, mais conhecida como Cunhaporanga Tatuyo, que viralizou no Instagram ao mostrar suas tradições. E, mesmo tendo se apaixonado por um carioca, Maira fez questão de continuar vivendo nas margens do Rio Negro.

Vivência na aldeia indígena dos Tatuyos, Rio Negro | Foto: Viajar Verde
A vivência na comunidade dos Tatuyos leva cerca de duas horas, com apresentação cultural, roda de conversa, pintura indígena e tempo para você comprar artesanatos – sim! Aproveite a oportunidade porque há peças incríveis e você terá a certeza de que o dinheiro vai ficar integralmente na comunidade. O interessante é que ainda é uma vivência bastante autêntica, desenhada por eles mesmos, sem exageros para impressionar turistas. Se você tiver vontade de se hospedar lá por uma noite ou mais, informe-se com a Poranduba Amazônia ou diretamente com a comunidade Tatuyo sobre essa possibilidade.
Comunidade do Tumbira: onde a floresta de pé ganhou valor pelo turismo
Ainda no mesmo dia, seguimos no nosso barco rumo à comunidade ribeirinha do Tumbira. Cada vez mais afastados de Manaus, já é possível nos sentirmos verdadeiramente imersos na Amazônia. No Tumbira vivem cerca de 35 famílias (aproximadamente 160 pessoas) que hoje têm o turismo como a principal atividade econômica. Mas, antes do estabelecimento da Reserva de Desenvolvimento Sustentável, em 2008, o extrativismo de madeira era a base da economia. Foram anos de aprendizado para entender que a floresta é muito mais valiosa em pé, e hoje os moradores defendem esta causa como ninguém.

Comunidade do Tumbira, Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro, AM | Foto: Viajar Verde
Quem nos recebe e conta essa incrível história de transformação são Roberto Brito de Mendonça, ex-madeireiro, empreendedor e hoje a principal liderança comunitária, e Vilson Sena, anfitrião local da Poranduba, que nos acompanha com atenção, cuidado e muitas histórias em todos os passeios.

Vilson Sena apresenta a comunidade do Tumbira | Foto: Viajar Verde
O Tumbira oferece diferentes opções de hospedagens domiciliares, além da tradicional Pousada do Garrido, onde fiquei, com seis quartos, banheiros individuais e ar condicionado. Em algumas casas é possível encontrar até cozinha. Todas as principais refeições, porém, são servidas no restaurante comunitário e, no caso do roteiro da Poranduba, normalmente estão incluídas no pacote.

Pousada do Garrido | Foto: Viajar Verde
Da cozinha, acompanhando os sons incansáveis dos barulhentos japus que se instalam nas árvores, saem delícias típicas locais, como pirarucu, costela de tambaqui assado, farinha de ovinha e tapioquinhas para o café da manhã, além de opções vegetarianas. Uma comida caseira cheia de afeto que te mantém super bem alimentada e cheia de energia para as aventuras que estão por vir!

Foto: Viajar Verde
Tumbira por dentro: vivências comunitárias e saberes da Amazônia
Nosso roteiro no Tumbira começa com uma visita à comunidade, guiada pelo anfitrião Vilson. Tivemos a oportunidade de saber mais sobre a história de transformação que aconteceu ali e também ver um pouquinho da vida que passa longe do turismo.
Na escola comunitária, que atende alunos de quatro comunidades da região até o 3º ano, a professora e bióloga Inês Alencar, conta como funciona o ensino em uma escola de mediação tecnológica, onde cerca de 6 mil turmas de todo o estado do Amazonas assistem às aulas online ao mesmo tempo. O trabalho desafiador dela é garantir o suporte aos alunos e atenção em sala de aula nas diferentes disciplinas.
Do outro lado da comunidade, no espaço Entrelaçando Gerações, Lucineide Silva expõe e vende seus incríveis artesanatos com materiais naturais, onde a fibra da palmeira bacaba é uma das principais estrelas. É impossível voltar para casa sem uma peça de decoração ou um novo colar para a coleção.

Lucineide Silva e os artesanatos da Entrelaçando Gerações | Foto: Viajar Verde
Ainda no nosso tour dentro da comunidade, tivemos a oportunidade de ouvir sobre o projeto de conservação e manejo de quelônios (tartarugas), ou, na língua local: bichos de casco. Os quelônios são historicamente explorados para consumo alimentar e produção de cosméticos na Amazônia. No entanto, se não houver manejo, de cada mil ovos, apenas um ou dois chegam à fase adulta. Por isso hoje as comunidades estão altamente envolvidas em projetos de conservação destes animais.
Encerramos nossa visita com uma pequena trilha, ideal para nos conectarmos de forma mais profunda com a floresta e com algumas de suas espécies mais emblemáticas: o açaí, a seringueira, a andiroba, a almecegueira, o angelim, a castanheira, entre outras. No final do caminho, fomos presenteados com um momento inesquecível: um banho revigorante no igarapé Tumbira, embalados pelo pôr do sol amazônico.

Pôr do sol no igarapé Tumbira | Foto: Viajar Verde
Uma das coisas que aprendemos na floresta é que aqui a natureza é quem manda e precisamos respeitá-la. As chuvas são as principais reguladoras do ritmo da floresta e também dos nossos passeios. Portanto, apesar da programação prevista, o ideal é estarmos sempre prontos para nos adaptarmos ao tempo da natureza. Estivemos no Amazonas em fevereiro, na época de chuvas (leia mais abaixo Quando viajar para a Amazônia – época de chuvas ou seca?), por isso, precisamos nos ajustar aos momentos de temporal. E posso dizer: eles foram deliciosos para refrescar o clima, tirar uma soneca, acalmar o ritmo, ler um livro, ouvir outros sons da floresta, agradecer a abundância e, claro, tomar um banho de chuva!
Seguindo a experiência dos nossos guias locais, aproveitamos o primeiro dia de céu aberto para fazer nosso passeio de barco noturno, que estava previsto para o dia seguinte. À noite, após o jantar, nossos barquinhos se embrenharam no meio dos igapós*, alcançando locais bem remotos. Mais do que ver a vida noturna, esta é uma oportunidade incrível de escutá-la. É à noite que centenas de aranhas, sapos, jacarés, cobras, corujas, morcegos, escorpiões e diversos insetos estão mais ativos na floresta.
Pode parecer uma experiência assustadora para alguns, mas ao estender o olhar para o céu e sentir a imensidão de estrelas sobre nós, a aventura de transformou em poesia. Os céus escuros, longe da grande Manaus, ajudam a deixar o ambiente ideal para a observação noturna. Voltamos para nossos quartos cansados depois de um dia pleno, mas preenchidos de Amazônia.
Parque Nacional de Anavilhanas: uma visita ao arquipélago fluvial
Amanhecemos cedo para atravessarmos o igarapé e irmos de encontro a mais um dos incríveis moradores da comunidade Tumbira. Hoje um artesão renomado e guia de turismo, Manoel Garrido teve a brilhante ideia de transformar um trator que carregava madeira em um transporte para viajantes. Manoel e seu trator, carinhosamente chamado de “caveirão”, nos levam por uma trilha pelo meio da mata, enquanto o anfitrião compartilha seus saberes. Ele e sua família trazem uma das histórias vivas de quem dependia exclusivamente da extração de madeira e hoje são defensores e protetores da floresta.

Manoel Garrido e seu trator no Tumbira | Fotos: Viajar Verde
Manoel conhece cada espécie da Amazônia, suas propriedades e medicinas e fala sobre elas com paixão. Nos convida a celebrarmos o Angelim-vermelho (ou Angelim-pedra), a árvore mais alta da América Latina, podendo alcançar mais de 80 m, e a nos arriscarmos no uso do repelente natural da formiga tapiba. Após alguns minutos de trator e outros de caminhada, nossa trilha termina com um delicioso banho de igarapé para refrescar.

Banho no igarapé | Foto: Viajar Verde

Angelim-vermelho | Foto: Viajar Verde
Durante a tarde, pegamos a voadeira e fomos até o vizinho Parque Nacional de Anavilhanas. O arquipélago fluvial com cerca de 400 ilhas e 350 mil hectares, protege uma biodiversidade única, incluindo espécies ameaçadas, como o Maracajá-peludo, Tamanduá-bandeira, Onça-pintada, Tatu-canastra, Ariranha, Peixe-boi-da-Amazônia e o Boto cor-de-rosa. Muitos animais se escondem por entre as águas e a mata densa. Mas os botos tucuxi fizeram questão de vir nos saudar.
Navegar por aquele labirinto de ilhas, onde o vento forte bate sobre as águas do Rio Negro formando os famosos e agitados banzeiros, é realmente tarefa desafiadora e só para os locais.
Tivemos a oportunidade de visitar uma das três bases de monitoramento do ICMBio e conversar com os profissionais técnicos sobre os desafios da operação em um local tão remoto. Ali, os jacarés Jack e Jason muitas vezes são suas únicas companhias. A região também é cercada de botos tucuxi, garças e tantas outras aves. Nossa aventura pela vizinhança do Tumbira seguiu até a Praia do Iluminado, uma praia de rio de areias branquinhas, que mais parece cenário de cinema.

ICMBio no Parque Nacional de Anavilhanas | Foto: Viajar Verde
No nosso último dia, fizemos mais uma navegação pelos igarapés e igapós* nos surpreendendo com paisagens espelhadas de tirar o fôlego. Em cada canto da Amazônia fomos abraçados por cenários diferentes. Tivemos a oportunidade de visitar a Praia Alta, mais uma das poucas praias de rio que resistem às temporadas de cheia, e aproveitamos o momento para nosso último mergulho de Amazônia.
Turismo comunitário em Santa Helena do Inglês e Saracá
Antes da despedida, (nossa, como passou rápido!) fomos visitar duas comunidades ribeirinhas vizinhas que também trabalham com o turismo comunitário na Amazônia. Em Santa Helena do Inglês, onde vivem 32 famílias, a pousada comunitária Vista Rio Negro é administrada coletivamente pela comunidade e oferece, além da hospedagem e alimentação, diversas atividades pela região. Ali mesmo, a empreendedora Adriana Azevedo de Siqueira decidiu investir em sua própria acomodação e recebe os viajantes na Pousada da Dri, que já está em fase de ampliação.
A poucos quilômetros, São Sebastião do Saracá é outra pequena comunidade que vem apostando no turismo e está ansiosa para receber mais visitantes. A família de Sebastião, Maria Iolanda, Janderson e Pedrina conta como foi a transformação de uma comunidade que vivia do extrativismo da madeira para uma que convive cuidando da floresta. “O turismo proporciona hoje muito mais do que a geração de renda. Ele nos ajuda a preservar”, explica Janderson lembrando que antes eles também caçavam peixe-boi e hoje estão desenvolvendo atividades em harmonia com a natureza,. Em Saracá os viajantes podem se hospedar na Pousada Cantinho da Ioiô ou nos charmosos chalés Luz Amazônia, com vista para o Rio Negro.
Foram dias intensos, de tantas trocas humanas e aprendizados profundos. Sem dúvidas, a Amazônia deixa muitas novas sementes dentro de nós. Despedir-se da floresta e, principalmente, de sua gente, é levar um pedaço da mata dentro do peito. A gente sai da Amazônia, mas ela segue com a gente, como um chamado para que sigamos mobilizados pela sua proteção. No fundo, acho que todo brasileiro carrega um pedacinho da Amazônia em si. Não é?
Quando viajar para a Amazônia – época de chuvas ou seca?
Viajar para a Amazônia é uma experiência fascinante em qualquer época do ano, mas entender as diferenças entre a estação de chuvas e a estação seca faz toda a diferença para planejar melhor a sua aventura. De modo geral, a estação chuvosa na Amazônia vai de dezembro a maio, enquanto a estação mais seca se estende de junho a novembro. Essas variações podem alterar bastante a paisagem, as atividades disponíveis e até o acesso a algumas áreas.
Durante a estação de chuvas, entre dezembro e maio, os rios sobem, inundam grandes áreas da floresta e criam o impressionante cenário das florestas alagadas. É uma ótima época para explorar de canoa os igapós e igarapés, chegando mais perto da copa das árvores e observando aves, macacos e outros animais. A floresta fica ainda mais exuberante e verde. Por outro lado, chuvas fortes podem dificultar algumas trilhas terrestres e o acesso a comunidades mais isoladas.
De junho a novembro, durante a estação seca, o nível dos rios baixa, revelando praias de areia branca e facilitando caminhadas em trilhas que, na cheia, ficam inacessíveis. É a época ideal para quem quer explorar a floresta a pé, visitar comunidades ribeirinhas em áreas mais afastadas e observar a fauna que se concentra nas margens dos rios. Além disso, os dias tendem a ser mais ensolarados, com chuvas menos frequentes, o que favorece passeios de barco mais longos e atividades ao ar livre. Em função das secas cada vez mais intensas, porém, muitas vezes essa tem sido uma época difícil para se visitar a Amazônia, já que alguns lugares têm ficado inacessíveis.
Antes de planejar sua viagem para a Amazônia, o ideal é sempre buscar informações com agências locais, guias e moradores da região, levando em conta o destino exato e a época do ano em que você pretende viajar.
Viajei a convite da Poranduba Amazônia
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