Destino Internacional

Overturismo na Europa: para onde não ir neste verão

overturismo Europa
Foto: Alamy
Escrito por Ana Duék

A Europa se prepara para viver mais um verão com destinos lotados e moradores irritados com o excesso de turistas, situação já antecipada por uma série de protestos coordenados, que ocorreram no dia 15 de junho de 2025 em diferentes cidades e países, incluindo Barcelona, Ibiza, Maiorca, Veneza e Lisboa. Antes mesmo de a alta temporada ter início, os moradores das Ilhas Canárias, na Espanha, foram às ruas para protestar contra o overturismo*, no dia 18 de maio, alegando: “As Canárias têm um limite”.

Desde 2024, quando a onda de protestos anti-turismo realmente estourou na Europa, um dos principais focos das ações dos governos tem sido regulamentar e reduzir o número de apartamentos de aluguel por temporada, já que eles, em muitos casos, são responsáveis por alguns dos principais problemas e pressões que afetam os moradores locais, incluindo o aumento do preço da moradia, gentrificação e o volume descontrolado de visitantes. Outro grande vilão desta história é o setor de cruzeiros e seus “turistas de um dia”, que descem nos portos apenas para uma visitação rápida, lotando os destinos e deixando, economicamente, pouco impacto positivo.

Em sua famosa “No List”, onde indica anualmente os locais a serem evitados pelos turistas, a Fodor’s listou em 2025 os “Destinos europeus onde os moradores locais não querem você”. Eles incluem: Barcelona, ​​Maiorca, Veneza, Ilhas Canárias e Lisboa. E, claro, há outros tantos pelo mundo que merecem ser reconsiderados, por diversas razões.

Muitos ativistas deixam claro: os protestos não são necessariamente contra os turistas, mas sim contra o turismo descontrolado e não planejado que sempre buscou números ao invés de qualidade. Finalmente, através das pressões sociais, os destinos vêm correndo atrás de soluções para encontrar um equilíbrio saudável entre o turismo e um lugar bom para se viver, o princípio que tanto buscamos no turismo responsável.

Amsterdam, a capital holandesa, que foi um dos epicentros do turismo de massa e de comportamentos de turistas mal educados há alguns anos, parece ter saído do foco do overturismo, embora ainda seja uma das mais buscadas na Europa durante o verão. A cidade trabalhou não só regulamentando aluguéis por temporada e impedindo a construção de novos hotéis, mas principalmente conscientizando seus visitantes através de campanhas que mostravam como o destino tem muito mais a oferecer do que festas, drogas e pontos turísticos tradicionais. A comunicação levou os turistas a conhecerem Amsterdam e seus arredores além do óbvio, dispersando os viajantes e também convidando-os contribuírem positivamente para o destino.

Se você tem a preocupação em ser um turista melhor para o destino que te recebe, um dos principais pontos de atenção ao visitar um local que sofre com overturismo é escolher a data certa para visitá-lo. Se abrir mão de conhecer o lugar dos seus sonhos pode parecer radical demais, saiba que a maioria destes destinos não passa por este problema durante o outono ou inverno, ou até mesmo na primavera. E certamente a experiência será melhor também para você!

*O que é overturismo?

Da palavra inglesa overtourism, de acordo com a Responsible Tourism Partnership, destinos com overtourismsão lugares onde anfitriões ou hóspedes, moradores locais ou visitantes, sentem que há muitos visitantes e que a qualidade de vida na área, ou a qualidade da experiência, piorou de forma inaceitável. O overturismo (ou sobreturismo) é o oposto do Turismo Responsável, que consiste em usar o turismo para criar lugares melhores para se viver e visitar. Muitas vezes, visitantes e hóspedes vivenciam a deterioração simultaneamente”.

Destinos mais afetados pelo overturismo em 2025:

Veneza, Itália

Veneza continua sendo um dos casos mais emblemáticos de overturismo e já luta com ele há décadas. A cidade, com pouco mais de 50 mil habitantes, recebe mais de 20 milhões de turistas anualmente. O fluxo excessivo sobrecarrega sua infraestrutura histórica e frágil, causando superlotação em pontos turísticos e canais, aumento do custo de vida e deslocamento dos moradores para fora da cidade. Os navios de cruzeiro, que antes atracavam próximos ao centro histórico, foram realocados, mas os turistas de um dia ainda inundam a cidade, contribuindo pouco economicamente e causando congestionamento. Veneza cobra uma taxa de entrada de € 5 nos períodos de pico para os turistas de cruzeiros, limita a chegada de navios e busca conscientizar os viajantes para mitigar os impactos. Mas o destino continua lotando todos os verões…

Conheça a empresa social Venezia Autentica e veja formas de contribuir positivamente como um viajante para a cidade.

overturismo Europa

Barcelona, Espanha

Barcelona sofre intensa pressão de milhões de turistas que visitam os pontos turísticos mais procurados, como a Sagrada Família, Parc Güell e o Bairro Gótico. O desenho urbano compacto não suporta esse volume, causando poluição sonora, aumento exorbitante dos preços de moradia devido a aluguéis de curta duração e perda da coesão comunitária. Hoje a cidade é um dos epicentros dos protestos anti-turismo, onde moradores usam pistolas de água e manifestações teatrais para expressar sua frustração e revolta. Já há alguns anos a cidade vem impondo taxas aos turistas, restrições para aluguéis de temporada e cruzeiros, mas ainda luta para preservar sua identidade cultural diante do crescimento dos visitantes.

overturismo Europa

Barcelona, Bogatello Beach | Foto: Jordi Boixareu – Alamy

Dubrovnik, Croácia

Dubrovnik é considerada uma das cidades europeia mais sobrecarregadas de viajantes no verão, com cerca de 27 turistas para cada habitante. Sua popularidade, impulsionada pela série “Game of Thrones”, transformou a cidade em um polo turístico congestionado, superlotando pontos históricos e infraestrutura. Medidas como limite de visitantes e promoção de visitas na baixa temporada são incentivadas para aliviar a pressão.

overturismo Dubrovnik

Ilhas Canárias, Espanha

As Ilhas Canárias enfrentam protestos generalizados devido aos efeitos negativos do turismo de massa, incluindo escassez de moradia e degradação ambiental. Os moradores exigem um turismo mais sustentável e uma melhor distribuição de riqueza. As ilhas têm registrado manifestações anti-turismo há alguns anos e pedidos por controles mais rigorosos sobre o número de turistas e empreendimentos.

Santorini e Mykonos, Grécia

Santorini e Mykonos, ícones consagrados da beleza das ilhas gregas, estão enfrentando níveis sem precedentes de overturismo. Santorini recebeu cerca de 3,4 milhões de visitantes em 2024, mais de 100 vezes o número de seus 25 mil habitantes, o que tem causado sérios desafios à infraestrutura local: falta de água e energia, acumulo de lixo, congestionamentos nas vilas de Fira e Oia, e aumento dos preços imobiliários, que afasta os moradores e trabalhadores locais. Mykonos segue o mesmo caminho, com praias e baladas superlotadas que pressionam os serviços e os recursos naturais da ilha. Os altos custos e a degradação ambiental já afetam negativamente a experiência turística. Em resposta, o governo grego começou a implementar medidas como a cobrança de uma taxa de €20 por passageiro de cruzeiro, limites diários para desembarque de turistas e restrições a novas hospedagens, iniciativas que buscam preservar a essência cultural das ilhas e garantir seu desenvolvimento sustentável.

Santorini overtourism

Santorini | Foto: Getty Images

Mont-Saint-Michel, França

Uma das joias históricas e arquitetônicas da França, localizado a 350 km de Paris, o Mont-Saint-Michel, tem enfrentado os efeitos do overturismo nos últimos anos. Atraindo mais de 2,5 milhões de visitantes por ano, esse pequeno ilhote medieval sofre com a superlotação, especialmente durante os meses de verão, quando as ruas estreitas ficam tomadas por turistas, dificultando a circulação e afetando a experiência tanto de visitantes quanto dos poucos moradores locais. A pressão do turismo em massa ameaça não apenas a preservação do patrimônio cultural e natural do local, mas também desafia a infraestrutura e levanta preocupações sobre o equilíbrio entre o acesso turístico e a conservação sustentável desse ícone francês.

overturismo Europa

Maiorca, Espanha

O excesso de turismo em Maiorca, capital das Ilhas Baleares, atingiu um ponto crítico: moradores e ativistas têm reagido diante do aumento desenfreado do número de visitantes, que sobrecarrega a infraestrutura, eleva os custos de moradia e compromete a qualidade de vida local. Com o turismo representando quase metade do PIB da ilha (foram 14,4 milhões de turistas apenas em 2023), os serviços públicos enfrentam dificuldades diante de praias superlotadas, estradas congestionadas e sistemas de transporte sobrecarregados. Protestos com slogans como “Menos turismo, mais vida” têm se espalhado pelas Ilhas Baleares, com demandas por limites no número de turistas, restrições a aluguéis de curto prazo e políticas que priorizem o bem-estar dos residentes. As autoridades começaram a reagir com medidas como a proibição de circulação de turistas em zonas históricas, o combate ao turismo de selfies em enseadas frágeis e a redução da capacidade de hospedagem, mas o desafio de equilibrar os interesses econômicos com a preservação da vida local ainda permanece.

overturismo Mallorca

Foto: Getty Images

Outros destinos como Gênova, Roma, Milão, Nápoles (Itália), Lisboa (Portugal), Ibiza, Granada e San Sebastián (Espanha), Amsterdam (Holanda) e Paris (França), também enfrentam os impactos e desafios do excesso de turismo durante o verão. Só em 2024, a Europa recebeu 747 milhões de viajantes internacionais de acordo com a ONU Turismo. Por toda a Europa e até mesmo no Reino Unido, governos estão alertas e tomando diferentes medidas para pensar as melhores formas de controlar a visitação, mantendo a qualidade de vida para os moradores. A taxação de turistas parece estar sendo uma das principais saídas.

Quais os efeitos do overturismo?

  • Crise habitacional: Aluguéis de curta duração e o turismo em massa elevam os custos da moradia, expulsando os moradores locais.
  • Degradação ambiental: A superlotação causa danos a habitats naturais.
  • Sobrecarga da infraestrutura: Gestão de resíduos, abastecimento de água e sistemas de transporte ficam saturados.
  • Degradação cultural: Patrimônios culturais são destruídos; tradições locais e a vida comunitária são interrompidas ou mercantilizadas.
  • Desequilíbrio econômico: Muitos turistas são visitantes de um dia que contribuem pouco economicamente, mas causam grande perturbação. A distribuição econômica da renda normalmente é concentrada aos locais mais turísticos e não gera impacto em outros pontos do destino.

Escolhas do viajante responsável em destinos que sofrem com overturismo

Além de optar por visitar esses destinos fora da alta temporada, aqui estão outras atitudes que você pode tomar para ser um viajante mais positivo para cidades e locais que estão sofrendo com o excesso de turismo:

– Informe-se antes de viajar:

Pesquise sobre quais são os desafios do lugar e como você pode contribuir positivamente para eles. Muitos comportamentos que os destinos esperam de nós são óbvios, outros nem tanto. Saia da sua zona de conforto, aceite mudanças culturais e permita que o destino te ofereça a melhor forma possível de viajar.

– Vá além dos pontos turísticos tradicionais:

Busque experiências mais autênticas, atividades vividas pelos locais, coisas além do óbvio. É claro que alguns pontos turísticos não podem faltar em uma viagem, mas será que todos eles realmente fazem sentido ou você está indo só porque todo mundo vai? Reavalie seus interesses! Talvez aquele destino tenha muitas outras coisas interessantes a te oferecer.

Visite os arredores da cidade:

Desvendar os subúrbios e arredores de muitos destinos pode ser uma experiência surpreendente e recompensadora! Que tal deixar alguns dias para fugir da multidão e explorar os cantinhos mais tranquilos, onde outras histórias te aguardam? É também uma forma de ajudar a distribuir a renda do turismo para outras regiões.

Guarde alguns segredos para si e não compartilhe nas redes sociais:

Se você descobriu um cantinho especial que praticamente ninguém conhece, antes de postar nas redes e contar para todo mundo, que tal pensar se ele merece essa divulgação? Nem tudo precisa ser compartilhado! Podemos fortalecer as iniciativas que precisam de maior impacto econômico, por exemplo, e deixar guardados os segredinhos naturais. 🙂

Que outras dicas você compartilharia com a gente?

 

Gostou desse conteúdo? Então compartilhe!

Sobre o Autor

Ana Duék

Jornalista de viagens com Mestrado em Gestão de Turismo e Hospitalidade pela Middlesex University (Londres). Desde 2015 defendendo um turismo mais consciente. Acredito que as viagens podem gerar mais impactos positivos para viajantes e para os destinos que nos recebem. Vamos descobrir como?

Skip to content