Destino Internacional

Boquete, Panamá: café Geisha, aventuras e turismo rural nas montanhas de Chiriquí

Boquete Panamá
A cidade de Boquete é cortada pelo rio La Caldera | Foto: Ana Duék, Viajar Verde
Escrito por Ana Duék

Terra de um dos cafés mais premiados do mundo, Boquete também surpreende pela natureza exuberante e o charme do interior

Entre as incríveis surpresas que o Panamá reserva para nós, a pequena cidade de Boquete é, sem dúvidas, uma das mais impressionantes delas. Escondido em um vale, em meio às montanhas da província de Chiriquí, no noroeste do Panamá, o destino de nome controverso para os brasileiros é na verdade um convite perfeito para os amantes da natureza, das aventuras, da boa gastronomia e do café. Sim! Boquete leva a fama por produzir alguns dos melhores, mais premiados e mais caros cafés do mundo na variedade Geisha, que podem chegar a custar US$ 300 por 100g.

Para quem curte temperaturas mais amenas, ali está também uma das regiões mais frias do Panamá, com temperaturas que variam entre 12 °C e 30 °C. Uma ótima oportunidade para tomar bastante café e ainda um delicioso chocolate quente.

Viajei a Boquete sem muita expectativa do que encontrar e me deparei com uma cidadezinha acolhedora, com uma comunidade de pessoas inspiradoras e criativas, deliciosa para caminhar despretensiosamente e cheia de experiências e atividades incríveis para todos os gostos.

Boquete Panamá

Vista das montanhas de Boquete | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Boquete abriga a maior comunidade de expatriados do Panamá, com a maioria deles sendo aposentados vindos dos Estados Unidos e Europa. O Panamá foi eleito pela International Living o segundo melhor lugar no mundo para se aposentar em 2026, oferecendo um bom custo de vida e um visto Panamá Pensionado que é um dos mais atrativos do mundo. E Boquete é o destino principal destas pessoas. Estando aqui você entende que a qualidade de vida é um dos pontos altos do lugar.

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Bajo Boquete | Foto: Eduardo Lopes, para REMOTE Latin America

Parques naturais, agroturismo e gastronomia do campo à mesa

Boquete é o ponto de partida para algumas das mais encantadoras experiências de imersão na natureza do Panamá: a subida ao vulcão Barú, o pico mais alto do país, localizado dentro do Parque Nacional Vulcão Barú; as trilhas surpreendentes do Parque Internacional La Amistad, que guarda uma biodiversidade única e é compartilhado com a Costa Rica; e diversas oportunidades de avistamento de aves, espalhadas por estas e por outras áreas protegidas. Afinal, em Boquete e região vivem mais de 400 espécies de aves. Entre elas está o charmoso quetzal-resplandecente, com suas plumas verdes e peito vermelho, considerada uma das aves mais lindas do mundo.

Nas montanhas de Boquete também estão algumas das mais incríveis aventuras do Panamá. Do rapel e escalada, ao rafting e caiaque, o destino se desenvolveu como referência do turismo de aventura. Mas é talvez do próprio solo que saiam alguns dos maiores encantos do lugar. Além das fincas de café, que descobriram ali um terreno rico e fértil para seus grãos, pequenos proprietários rurais se dedicam à produção orgânica de frutas, verduras, geleias, queijos de cabra, mel e flores, ajudando a fomentar o agroturismo e a gastronomia do campo à mesa.

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Sendero Cerro Artilleria, Boquete | Foto: Visit Panama

Como chegar em Boquete

A forma mais prática de chegar a Boquete é de avião, saindo da Cidade do Panamá até David, capital da província de Chiriquí. A Copa Airlines e a Air Panama oferecem voos diários com o trecho. A partir de David, basta pegar um transfer, alugar um carro ou tomar um ônibus até Boquete. O trajeto dura de 40 a 50 minutos.

Quem prefere uma opção mais econômica pode ir de ônibus direto da Cidade do Panamá até David, saindo do Terminal de Albrook (empresas Panachif ou Terminales David-Panamá). Os ingressos não são vendidos online, então chegue com 60 minutos de antecedência. O trecho custa entre US$15 e US$20 e dura de 6 a 7 horas, seguindo pela Rodovia Panamericana. Há opções diurnas e noturnas.

Chegando em David, você precisa tomar um segundo ônibus até Boquete. Eles saem do mesmo terminal onde você desembarcou. Basta comprar a passagem diretamente com o motorista ou cobrador e ela custa de US$2 a US$3.

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O que fazer em Boquete, Panamá: 5 experiências imperdíveis

Antes de mais nada, recomendo andar sem pressa pelo vilarejo de Bajo Boquete, cortado pelo rio La Caldera, onde a vida caminha mais lenta. Vale apreciar o dia a dia das crianças indo para a escola, adentrar algumas das ruas mais tranquilas, fazer uma foto no florido Paseo de los Novios, se divertir com os diversos nomes e placas de comércios que trazem a palavra Boquete e, claro, aproveitar as deliciosas opções de restaurantes.

Em seguida, deixo outras sugestões de passeios e experiências que você não pode perder em Boquete.

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Bajo Boquete | Foto: Eduardo Lopes, para REMOTE Latin America

Tour de café na Lamastus Family States

Entre as diferentes fincas de café que você pode visitar em Boquete – e, sim, esse é um passeio obrigatório, mesmo que você não seja um apreciador de café! – está a Lamastus Family States, uma das mais antigas e premiadas fazendas de café da região e, consequentemente, do mundo. A história deles começa em 1918, quando o americano Robert Lamastus, natural do Kentucky, plantou seus primeiros pés de café arábica nas encostas do Vulcão Barú. Mais de um século e quatro gerações da família depois, a tradição segue viva e os cafés de propriedade Lamastus se expandem por três fazendas na região: a Elida Estate, a El Burro Estate e a Luito Geisha Estate. A Elida, a mais alta delas, chega a 2.500 metros, e é a fazenda de café mais alta do Panamá. Parte das fincas está localizada dentro do Parque Nacional Volcán Baru.

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Tour de café pela Lamastus Family States | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

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Parte das fincas Lamastus está localizada dentro do Parque Nacional Volcán Baru | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

O tour dura cerca de 2h30 e é uma imersão completa no universo do café especial. Nosso guia Fernando, nos levou pelas plantações para acompanhar o cultivo dos pés de café, à sombra, plantados em harmonia com a floresta e com as aves. Ali nós aprendemos que, além do famoso Geisha, a Lamastus cultiva diferentes variedades de café arábica em solos vulcânicos ricos e profundos, utilizando três métodos distintos de processamento: natural, lavado e honey. Cada método resulta em perfis de sabor completamente diferentes.

Depois de percorrer a fazenda, conhecemos o processo de beneficiamento dos grãos, do despolpamento ao ensacamento. As cerejas são colhidas à mão, com rigoroso critério de maturação, por trabalhadores indígenas da etnia Ngobe-Buglé e toda a produção é bastante artesanal e limitada. Terminamos com uma incrível degustação de variedades de café de alta qualidade, nos moldes das competições internacionais. Mesmo que você não seja um amante de café, é impossível sair dali sem entender por que os grãos de Geisha cultivados naquelas montanhas podem custar até US$ 300 por 100 gramas.

Boquete Panamá

Lamastus Family States | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Almoço farm-to-table na Hacienda Mamecillo

Escondida no alto das montanhas, em meio a 1,5 hectares de floresta nublada preservada, a Hacienda Mamecillo reúne uma experiência única de imersão na natureza, conexões humanas e gastronomia sustentável ao redor da mesa. Na sua própria casa, transformada em um restaurante acolhedor, o chef Rolando Chamorro e sua esposa Gabriella Carlson nos recebem para um momento de pausa, aprendizados sobre os ingredientes, ervas, frutas e sabores que a natureza nos dá, boas conversas e, claro, um menu surpreendente e delicioso, em diversos tempos, com tudo colhido ali mesmo na fazenda e preparado na hora.

Hacienda Mamecillo Boquete Chiriquí

Hacienda Mamecillo | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Antes de sentarmos à mesa, temos a oportunidade de caminhar pelo jardim e pela estufa, acompanhados de Rolando e de seus filhos, para conhecer de perto esses alimentos. Alguns curiosos, como a minúscula cenoura bonsai e outros familiares para nós, como o jambu. O leite de cabra vem das simpáticas Canela e Vanilla, que pertencem às crianças – e elas mesmas ajudam a cuidar.

Hacienda Mamecillo Boquete Chiriquí

O chef Rolando Chamorro e a cenoura bonsai na Hacienda Mamecillo | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Para quem tem a oportunidade de passar o dia, a Hacienda Mamecillo oferece um day tour completo, que inclui ainda uma trilha mais extensa pela floresta, alcançando cachoeiras e com oportunidades de avistar aves e conhecer outras plantas nativas. Os visitantes também são convidados a conhecer um pouco mais da produção orgânica de café da fazenda e fazer uma degustação.

A Hacienda Mamecillo faz parte da incrível seleção ‘Restaurantes no Fim do Mundo’, eleita para o programa homônimo da National Geographic. Vale a pena assistir aqui!

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Hacienda Mamecillo | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Trilha Lost Waterfalls

Para quem busca uma trilha mais acessível, com recompensa garantida, as Lost Waterfalls, ou Las Tres Cascadas, são a pedida certa. O percurso de cerca de 6 km (ida e volta) atravessa uma floresta nublada na região de Bajo Mono e leva até três cachoeiras escondidas entre a vegetação, cada uma com um charme diferente. A trilha tem dificuldade moderada, é bem sinalizada e dura em média 3 horas.

A segunda cachoeira é a mais impressionante delas: uma cortina de água que cai sobre uma piscina natural cercada de rochas cobertas de musgo — perfeita para um mergulho refrescante. A terceira exige um pouco mais de esforço, com um trecho auxiliado por cordas, mas entrega uma das vistas mais isoladas e selvagens do percurso.

Em Lost Waterfalls tivemos a rara oportunidade de observar um quetzal! Então vá preparado. Leve também um calçado com boa aderência porque a trilha pode estar bem escorregadia. Eu, por exemplo, tive a experiência de um pequeno tombo. E não deixe de colocar traje de banho e toalha. A entrada custa US$ 10 por pessoa. O parque abre às 8h e o último acesso é às 15h.

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Trilha Lost Waterfalls | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Aventuras no Boquete Tree Trek

Para quem busca adrenalina, o Boquete Tree Trek é parada obrigatória. Este é um parque de ecoaventuras, que ocupa uma reserva natural de 40 hectares em Palo Alto, a cerca de 15 minutos de carro de Bajo Boquete. Ali os aventureiros podem escolher entre experiências como o tour de canopy, com uma rota de tirolesas de 4,5 km de extensão sobre as copas das árvores, ou o tour de pontes suspensas, um circuito com 6 pontes que permitem caminhar sobre o dossel da floresta nublada panamenha.

Para os mais corajosos, o Tree Trek oferece o famoso Superman, uma tirolesa especial para quem quer sentir o vento ainda mais forte no rosto. Mas a proposta do parque vai além da aventura: eles também organizam tours de observação de aves, café, chá, rum, mel e abelhas, tornando-o um verdadeiro hub de experiências para diferentes perfis de viajantes. Uma boa dica é reservar com antecedência, especialmente nos fins de semana, quando a demanda é maior.

Boquete Panama

Tirolesa no Boquete Tree Trek | Foto: Visit Panama

Subida ao Vulcão Barú

Com 3.474 metros de altitude, o Vulcão Barú é o ponto mais alto do Panamá e um dos poucos lugares no mundo de onde é possível se avistar, ao mesmo tempo, o oceano Pacífico e o mar do Caribe (se as condições climáticas permitirem). Por isso, a subida até o seu topo é uma das aventuras mais desejadas do Panamá. A opção mais procurada para chegar ao cume é o tour em veículo 4×4, que parte de madrugada para garantir a chegada ao nascer do sol. É ideal para quem quer viver a experiência do cume sem a exigência física da trilha e ainda tem a vantagem de escapar do frio cortante dos 3.500 metros dentro do veículo. Mas, claro, esteja preparado para temperaturas próximas do zero quando você sair do carro para ver o sol nascer. A experiência custa cerca de US$ 150 e é oferecida por agências e guias locais.

Parque Nacional Vulcão Barú

Parque Nacional Vulcão Barú | Foto: Visit Panama

Para os mais aventureiros, existem duas opções de trilhas para chegar ao topo: a trilha de Los Llanos e a de Boquete. Los Llanos é mais desafiadora e de nível difícil e a caminhada pode durar até oito horas. É uma das trilhas mais desafiadoras e recompensadoras da América Central. Boquete é a rota usada pelos veículos 4×4, mas muitos trilheiros optam por ela por ser menos íngreme e exigir menos esforço físico. No geral, são 14 km de subida, com um ganho de altitude de 1.900 metros. Embora seja possível fazer as trilhas sem guia, a contratação de um profissional local é altamente recomendada.

Onde se hospedar em Boquete, Panamá

Boquete tem uma diversidade de hospedagens incríveis para todos os gostos e bolsos, incluindo charmosos lodges de luxo em meio à natureza até casas familiares mais em conta na cidade.

Finca Lérida

Eu fiquei hospedada na Finca Lérida que, além de hotel boutique, abriga uma premiada finca de café. Ela está localizada na parte alta de Boquete, em Los Naranjos, a 1,600 metros de altitude, em meio a uma reserva privada de 294 acres e muito próxima ao Parque Nacional La Amistad. Hospedar-se ali é um convite à conexão com a natureza e, claro, com a magia do café.

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Finca Lérida | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Parte da renomada Cayuga Collection, a Finca Lérida é genuinamente comprometida com a sustentabilidade, cuidando de práticas como eliminação de plásticos de uso único, separação e descarte adequados dos resíduos, equipe 100% local e consumo de alimentos zero quilômetro. Do restaurante La Brûlerie, saem pratos despretensiosos, mas saborosíssimos com ingredientes sazonais e locais. Os quartos e chalés são simples, mas amplos, confortáveis e cheios de personalidade — com madeiras naturais, vistas para a plantação de café ou para o jardim e aquela atmosfera de cabana de montanha que convida a desacelerar. Acordar com o canto dos pássaros e o ar fresco de Los Naranjos é, por si só, uma das experiências da visita. Para quem busca uma hospedagem que vai além do conforto e conta uma história de sabores, a Finca Lérida é difícil de superar.

Boquete Panamá

Restaurante La Brûlerie na Finca Lérida também aberto a não hóspedes | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Hacienda Los Molinos

Este também é um hotel boutique mais distante do centro e conectado à natureza, que oferece conforto e deliciosa gastronomia. A Hacienda Los Molinos está situada às margens do cânion do Rio Cochea, com vistas deslumbrantes para o Vulcão Barú e uma atmosfera de fazenda elegante e acolhedora. O restaurante Raíces é um dos destaques, com um cardápio assinado pelo chef que valoriza os produtos locais de Chiriquí. O hotel também conta com spa, bar com vista para o cânion e opções de tours dentro da propriedade, como trilhas e tubing no rio.

Villa Alejandro

Para quem busca conforto com melhor custo-benefício e prefere estar no coração da cidade, a Villa Alejandro Boutique Hotel Collection é uma excelente pedida. Trata-se de uma coleção de seis pequenos hotéis e residências espalhados por Boquete — entre eles Villa Alejandro, The Residence, Río Verde, El Cielo, Casa Reina e Casa Maté. Cada um tem um estilo próprio e opções de quartos, suítes e casitas, a maioria com cozinha equipada. Os espaços são bem decorados, limpos e com aquele toque de hospitalidade atenciosa que faz a diferença. Uma ótima base para explorar Boquete sem estourar o orçamento.

Viajei a Boquete a convite do Visit Panama

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Sobre o Autor

Ana Duék

Jornalista de viagens com Mestrado em Gestão de Turismo e Hospitalidade pela Middlesex University (Londres). Desde 2015 defendendo um turismo mais consciente. Acredito que as viagens podem gerar mais impactos positivos para viajantes e para os destinos que nos recebem. Vamos descobrir como?

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