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Turismo indígena no Panamá: como é visitar uma comunidade Emberá

turismo indígena Panamá
Pintura indígena Emberá | Foto: Ana Duék, Viajar Verde
Escrito por Ana Duék

Uma imersão de turismo comunitário na primeira comunidade Emberá do Parque Nacional Chagres, celebrando suas tradições ancestrais e rica cultura

Saímos da Cidade do Panamá rumo ao Parque Nacional Chagres, uma área protegida de 1.250 km², vital para a preservação dos ecossistemas de floresta tropical ao redor do Canal do Panamá. Nas margens do sinuoso Rio Chagres, o mais importante do país, vivem seis comunidades Emberá, uma das sete etnias indígenas que existem hoje no país. Seus ancestrais chegaram ali nos anos 1970, vindos da província de Darién, mais ao leste, em busca de melhores condições de vida, alimentos e tranquilidade para suas famílias.

Quando em 1984 a área foi estabelecida como Parque Nacional, os Emberá foram proibidos de caçar, plantar e derrubar árvores para construir suas casas e piraguas (canoa indígena Emberá) e a pesca passou a ser permitida com bastante controle. Desde então, eles entenderam que o turismo comunitário poderia se tornar sua principal fonte de renda, junto com o artesanato.

Comunidade indígena Emberá Druá

Comunidade indígena Emberá Druá 2.60 | Foto: Ogaya Travel

Por sua proximidade com a Cidade do Panamá (apenas uma hora de carro e alguns minutos de barco), as comunidades Emberá recebem hoje muitos visitantes. A maioria deles vem passar algumas horas nas aldeias, assiste a apresentações e rituais, aprende um pouco sobre a cultura Emberá e volta para a capital no mesmo dia.

No nosso caso foi diferente. A nossa imersão, organizada pela OGAYA Travel, teve o propósito de nos dar mais tempo de qualidade e oportunidades para nos conectarmos com os moradores locais e sentirmos mais de perto como é a vida na comunidade, além de ouvirmos sobre suas práticas medicinais, cosmovisão, seu relacionamento com a natureza e compartilharmos momentos de dança e arte. Para isso, passamos uma noite na comunidade Emberá Druá 2.60, a mais distante delas ao longo do rio e o primeiro assentamento do Rio Chagres, localizado a 40 minutos de piragua do Porto de Corotú, onde termina a estrada dentro do Parque Nacional.

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De piragua, canoa indígena, pelo Rio Chagres | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

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Quem são os indígenas Emberá no Panamá

Os Emberá são um dos sete povos indígenas originários do Panamá e mantêm uma relação profunda com a floresta e com os rios que atravessam seu território. Tradicionalmente, suas vidas estão conectadas às águas, que são vistas como fontes de alimento, de vida e parte essencial de sua cosmovisão. Eles acreditam na força espiritual e ancestral de Jenene, uma árvore-mãe que tem o poder de proteger, gerar vida e água, e todas as suas crenças e rituais estão conectados à natureza, tornando-os guardiões da floresta.

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Comunidade indígena Emberá Druá | Foto: Ogaya Travel

Normalmente os Emberá são associados ao povo Wounaan, com quem compartilham uma história de convivência e intercâmbio cultural que, ao longo do tempo, levou à aproximação entre as duas etnias. Embora tenham origens distintas e preservem suas próprias línguas, eles se uniram em algumas regiões do Panamá, passando a compartilhar territórios, tradições e conhecimentos. Atualmente, comunidades Emberá-Wounaan vivem em áreas protegidas como o Parque Nacional Darién, o Parque Nacional Chagres e o Parque Nacional Soberanía, onde preservam saberes relacionados à medicina tradicional indígena, à navegação pelos rios, à produção artesanal e ao manejo sustentável da floresta. Além de fortalecer sua identidade cultural, essas comunidades encontraram no turismo comunitário uma forma de gerar renda, valorizar suas tradições e compartilhar com visitantes uma visão de mundo profundamente ligada à natureza.

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A experiência na comunidade Emberá Druá: a primeira do Rio Chagres

Chegamos na comunidade Emberá Druá na hora do almoço e fomos recebidos, com muitos sorrisos, por algumas das lideranças e moradores locais. Pessoas como Mateo Meha Ruiz, atual Nökó (líder tradicional ou cacique) da comunidade, também à frente da gestão do turismo; e Andrea Lino Machi, presidente da Cooperativa Tranchichi Emberá e voz ativa na defesa dos direitos territoriais e do turismo comunitário da região.

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Mateo Meha Ruiz é o atual líder tradicional da comunidade Emberá Druá | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Do forno de barro já estava saindo um delicioso peixe com patacones (banana verde frita) envolto na folha de palmeira. Nosso guia, o incrível Patricio Roca, é recebido na comunidade como alguém da família e isso nos fez sentir ainda mais em casa. São anos visitando e levando turistas até as comunidades do Chagres e Patricio até arrisca algumas palavras em Emberá. Claudia, também liderança local, aproveitou nossa pausa para o almoço para vir contar um pouco sobre o rico artesanato Emberá, que trabalha principalmente com fibra de palmeira chunga, madeiras cocobolo, miçangas e tintas naturais.

turismo indígena Emberá Panamá

Foto: Ana Duék, Viajar Verde

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Claudia apresenta o artesanato Emberá | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Hoje cerca de 140 pessoas vivem na comunidade Emberá Druá 2.60, que ganhou esse nome porque um explorador a identificou pelo número de referência no mapa. Emberá significa gente e Druá quer dizer lugar. Eles têm sua própria organização comunitária, escola para as crianças, seu próprio sistema de justiça e ainda preservam seu idioma. Os mais velhos muitas vezes não falam espanhol e cada pessoa tem um nome Emberá e um nome em espanhol.

Após o almoço e um pouco de prosa, aproveitando para observar as crianças se divertindo com um futebol no meio da quadra, o Jaibaná (líder espiritual ou xamã da comunidade) Julio nos convidou para um passeio pelo jardim. Ali eles cultivam as plantas que até hoje são a “farmácia” da comunidade e resolvem quase todas as enfermidades. A função do Jaibaná normalmente é passada de pai para filho, assim como seus saberes, que são, em muitos casos, guardados a sete chaves.

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Visita ao jardim de plantas medicinais com o jaibaná Julio | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Durante a tarde, tivemos tempo para caminhar um pouco pela comunidade, visitar a escola e fazer uma pintura tradicional Emberá, , que eles chamam de Kipara e é feita com a seiva do jenipapo, assim como no caso de muitas etnias indígenas brasileiras. Esse documentário curtinho conta sobre a importância da kipara para os Emberá.

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Kipara, a pintura tradicional Emberá feita com a seiva do jenipapo | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Quando a noite caiu, ainda fomos brindados com uma linda apresentação de danças tradicionais seguida por um ritual espiritual com o Jaibaná. Na floresta a gente dorme cedo e foi delicioso poder fazer isso com o som da natureza, depois de alguns dias exaustivos na cidade – é aí que a gente se dá conta de como a cidade nos consome. Nossos aposentos são um colchão com uma tela mosquiteiro. Portanto, se você espera luxo e não conexão, essa experiência não é para você.

Acordamos da mesma forma que dormimos: impregnados da energia única da floresta. Andrea Lino nos esperava na beira do rio ao amanhecer, com outra pequena cerimônia ancestral e palavras profundas sobre o que significa uma vida conectada à natureza.

Com as obras de expansão do Canal do Panamá, em 2016, o Rio Chagres passou a baixar mais do que o normal, comprometendo os modos de vida das comunidades e seu único meio de deslocamento. Por isso, a conscientização sobre a proteção da floresta é cada vez mais essencial para os Emberá que habitam o Parque Nacional e certamente também para quem os visita.

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Andrea Lino conduziu um ritual na beira do Rio Chagres | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Aproveitamos aquele momento de celebração da floresta para tomar um delicioso banho no Rio Chagres, antes de subir para o café da manhã. Eram nossos últimos momentos na comunidade. Mas ali tudo corre no seu tempo, sem pressa e sem horários exatos. Tivemos a chance de visitar os artesanatos, desenvolvidos principalmente pelas mulheres, e brincar um pouco com as crianças, que se divertem criativamente com o que encontram pela frente – naquele momento eram os instrumentos musicais. Algumas são mais tímidas e outras vêm logo em busca de conversa, interação e até abraços.

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Foto: Ana Duék, Viajar Verde

Deixar os Emberá Druá não foi fácil. Em pouco tempo tinha estabelecido uma conexão e carinho especiais e vontade de aprender e trocar muito mais com eles. Posso dizer que essa foi uma das experiências mais especiais que tive com comunidades indígenas porque fluiu de uma forma profundamente natural e porque nossos anfitriões são pessoas realmente carismáticas, acolhedoras e orgulhosas de suas tradições e cultura. Se você tiver a oportunidade, esteja com eles por mais de uma tarde!

O que saber antes de visitar uma comunidade Emberá no Panamá:

  • 🇵🇦 Escolha uma agência ou operadora responsável: Priorize agências ou guias com relação estabelecida e transparente com as comunidades. Bons operadores apresentam o visitante de forma contextualizada e respeitosa e remuneram as comunidades de forma justa.
  • 🙏 Respeite o espaço e as pessoas: Pergunte antes de fotografar, especialmente crianças e momentos rituais. Lembre-se de que você está na casa deles. Chegue aberto a aprender e entender sobre novas perspectivas e modos de vida.
  • 🧺 Compre artesanato diretamente dos indígenas: É uma das formas mais concretas de gerar impacto econômico positivo. Procure entender o valor real do que está comprando — cada peça carrega técnica, material, tempo e história.
  • 🍬 Não leve doces ou presentes para as crianças: Parece gentil, mas é uma prática que gera dependência e desequilíbrio dentro da comunidade. Se quiser contribuir, pergunte ao seu guia sobre formas mais adequadas de apoio.
  • 🎒O que levar: Roupas leves, roupa de banho, tênis para caminhada, chinelo, repelente natural, blusa de manga comprida, dinheiro em espécie.
  • 🌧️ Quando ir: É possível visitar as comunidades Emberá o ano todo, mas é importante saber que o Panamá vive uma estação seca (dezembro a abril) e uma estação chuvosa (maio a novembro). Embora na época de chuvas haja mais chances de se deparar com pancadas de chuva, na temporada seca o Rio Chagres baixa, o que pode dificultar o acesso às comunidades mais distantes como a Druá.
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Comunidade indígena Emberá Druá | Foto: Ogaya Travel

Sobre a OGAYA Travel:

Mais do que levar viajantes aos destinos mais fascinantes do Panamá, a OGAYA Travel propõe experiências capazes de transformar a forma como enxergamos o país, gerando impactos positivos. Especializada em viagens de natureza, aventura e cultura e focada em um turismo regenerativo, a operadora cria roteiros personalizados que conectam biodiversidade, experiências imersivas e encontros com comunidades locais. O nome “OGAYA”, que significa “olhos abertos” no idioma indígena Guna, traduz bem essa filosofia: viajar com presença, curiosidade e sensibilidade, buscando oportunidades reais de conexão, aprendizado e impactos positivos.

Entre em contato com a OGAYA Travel para saber mais sobre a experiência.
Comunidade Emberá Druá

Comunidade Emberá Druá | Foto: Ana Duék, Viajar Verde

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Sobre o Autor

Ana Duék

Jornalista de viagens com Mestrado em Gestão de Turismo e Hospitalidade pela Middlesex University (Londres). Desde 2015 defendendo um turismo mais consciente. Acredito que as viagens podem gerar mais impactos positivos para viajantes e para os destinos que nos recebem. Vamos descobrir como?

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