Bagagem Leve

Que turistas queremos?

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Foto: Sasha Lantukh
Escrito por Ana Duék

conteúdo publicado originalmente em minha coluna na revista O Concierge

Desde que acompanho o setor de turismo no Brasil, vejo uma busca insaciável pelo mais e mais. “Precisamos de mais turistas; turistas que gastem mais. Precisamos de mais eventos; de mais dinheiro”. Talvez reflexo compreensível do nosso potencial mal aproveitado. Mas a verdade é que o pensamento focado na quantidade muitas vezes esquece de considerar a qualidade.

Temos visto diversos destinos onde comunidades locais já não suportam mais o turismo de massa excessivo, descontrolado. Veneza, Barcelona, Ibiza ou Dubrovnik são casos extremos de muitas situações vividas no mundo todo, inclusive no Brasil. Diante da alta de alugueis, lugares lotados, serviços comprometidos, viajantes mal educados, os moradores têm se perguntado: “por que eu quero esse turismo aqui?” Será que ele é positivo para a cidade? Ou somente para um grupo bem específico do setor?

David Simmons, professor na Lincoln University, na Nova Zelândia, defende que é urgente que troquemos nosso foco do volume para o valor. “Se você não sabe para onde está indo, normalmente o volume vira opção”, disse ele durante o Sustainable & Social Tourism Summit, ocorrido em Cancún, no México, no primeiro semestre de 2017. Simmons desenvolveu uma pesquisa para o Ministério do Turismo da Nova Zelândia, onde provou que maximizar o volume não leva necessariamente a maximizar o valor e nem gera negócios sustentáveis.

Muitos destinos já vêm considerando a gestão de visitantes em suas políticas, planejamentos e iniciativas. É o caso da Nova Zelândia, com o plano Tourism 2025, e das Ilhas Cayman, que estão desenvolvendo um novo plano nacional de turismo a partir de uma avaliação de sustentabilidade do destino, feita pelo Conselho Global de Turismo Sustentável.

Por aqui, seguimos falando em quantidade, com um plano que leva ela no nome – Brasil Mais Turismo, e, infelizmente, pouco (ou nada) diz sobre sustentabilidade ou inclusão. Falamos de mais eventos para o Rio de Janeiro como forma de resolver uma questão crônica que não se resolveu nem mesmo com megaeventos como a Copa e a Olímpiada. Incentivamos mais cruzeiros, um formato que sabidamente é excludente para grande parte do turismo e das comunidades. Por outro lado, vejo o Ministério do Turismo investindo em pesquisas para conhecer o perfil dos nossos viajantes. Penso que esse é um grande passo no sentido de começar a qualificar o nosso turismo e torná-lo benéfico para todos. Não estou falando de exclusão. Mas o ideal é que todos possam viajar sem causar impactos negativos a ninguém.

Há espaço para todos!

Sobre o Autor

Ana Duék

Jornalista com Mestrado em Gestão de Turismo e Hospitalidade pela Middlesex University (Londres), cursando MBA em Marketing Digital pela FGV. Acredita que as viagens podem ajudar a formar melhores pessoas e lugares para se viver! Cada um pode encontrar o seu caminho.