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Certificação e compromisso com o Turismo Sustentável – entrevista com Saúl Blanco, Rainforest Alliance

Turismo Sustentável

Na próxima semana, entre 6 e 9 de setembro, acontece a conferência anual do Conselho Global de Turismo Sustentável (Global Sustainable Tourism Council – GSTC), em Coyhaique, Aysén, no Chile. Ela vai reunir lideranças do mundo todo para discutir importantes questões da sustentabilidade de destinos, incluindo gestão, marketing e certificação. Um dos profissionais presentes será Saúl Blanco Sosa, especialista técnico em certificação de turismo há 18 anos e líder global de Qualidade em Turismo Sustentável na Rainforest Alliance.

Saúl acredita que a sustentabilidade deve ser incorporada plenamente por pessoas, empresas e destinos e que o compromisso irrestrito com ela ainda é o maior impasse. “Tornar-se parte do mundo do desenvolvimento sustentável é como adotar uma nova religião. A única maneira de se tornar sustentável é adotando a sustentabilidade como filosofia de vida. E nem todos estão dispostos a adotar essa filosofia completamente”. Para ele, o processo de certificação é nada menos do que o compromisso real com o desenvolvimento sustentável.

Confira nossa entrevista com Saúl Blanco Sosa, que fala dos avanços e entraves do desenvolvimento sustentável de destinos na América Latina e da importância do setor privado para essas conquistas.

1) Nesses anos, como você vê o desenvolvimento do comportamento das empresas de turismo da América Latina em relação à sustentabilidade?

Eu comecei a trabalhar com certificação em 1999. Me lembro que naquela época, falar sobre certificação ou sustentabilidade era algo relativo apenas a ONGs ou fortemente focado no ecoturismo. A indústria não estava envolvida com a sustentabilidade do turismo. Agora, eu posso dizer que o turismo sustentável não é mais algo estranho. E não é apenas uma tendência, já é parte da indústria do turismo. No entanto, as empresas dispostas a se comprometer ainda são muito poucas. Eu penso que a maioria delas está fazendo algo, mas nem todas querem ir até o fim. No que diz respeito à certificação, uma das razões pelas quais algumas empresas não participam de um programa de certificação é basicamente a questão do compromisso.

Tornar-se parte do mundo do desenvolvimento sustentável é como adotar uma nova religião. Esta é uma maneira de viver. Não é apenas uma iniciativa para medir o desempenho e marcar resultados. A única maneira de se tornar sustentável é adotando a sustentabilidade como filosofia de vida. E nem todos estão dispostos a adotar essa filosofia completamente.

Eu destacaria como grande sucesso o fato de o conceito de turismo sustentável ter se tornado algo que a indústria entende, conhece e que é o que as pessoas almejam. E esse é um grande passo à frente. Há 20 anos, com exceção da Costa Rica, nos países latino-americanos as empresas de turismo não buscavam realmente a sustentabilidade. Apenas 20 anos depois, ela se tornou o objetivo aspiracional da indústria. Eu sempre tento ver o lado positivo. Nós já fizemos muito para mudar a mentalidade das empresas e dos líderes da indústria. Mas ainda há muito a ser corrigido e também há muito que a indústria do turismo não pode resolver por conta própria.

Outra coisa que se tornou desafiadora para algumas empresas é que, há 20 anos, muitas pessoas entendiam o turismo sustentável (e acho que muitas pessoas ainda entendem) como um tipo de turismo baseado na natureza, o que é errado. Em muitos casos, as pessoas pensam: “estou fazendo muitos esforços sustentáveis. Eu economizo água, economizo energia, estou medindo minha pegada de carbono, estou ajudando a preservar uma floresta natural, gerenciando resíduos”. E isso é ótimo. Mas o que você está fazendo com a comunidade local? O envolvimento com pessoas locais às vezes é mais desafiante do que iniciar um programa para economizar água ou energia. Quase todos os esforços de sustentabilidade são realizados internamente. Mas quando se trata da parte externa, do campo social da sustentabilidade, é quando algumas empresas encontram problemas desafiadores. É quando começamos a falar sobre discriminação, respeito às culturas locais, às tradições locais e a fazer com que as pessoas se envolvam.

2) Em quais áreas ou países você viu o maior progresso em termos de melhores práticas em empresas de turismo? E onde você acredita que as iniciativas ainda são reduzidas?

Há muitos progressos para comemorar, mas também há desafios que precisamos abordar. Do ponto de vista da indústria, um dos desafios é a falta de vontade de se comprometer com o conceito completo de desenvolvimento sustentável do turismo. Em minha opinião, como já disse, uma das áreas em que a indústria não se sente confortável em se comprometer é relacionada com as questões sociais.

Penso que são desafios que enfrentamos regionalmente em todos os países latino-americanos. Eu diria que é um desafio mundial. A parte social é central, embora haja muitos desafios ambientais e ainda precisemos trabalhar muito com isso. Os desafios estão em geral mais relacionados ao fato de que a indústria precisa realmente se comprometer com todo o conceito de sustentabilidade. Esse compromisso não é totalmente endossado em todos os países da América Latina. Eu não citaria exemplos de países específicos. Não gostaria de apontar um país, porque sei que existem países com situações muito difíceis e, dentro dessas situações difíceis e estruturas muito pobres para apoiar a sustentabilidade, existem algumas empresas e indivíduos que estão fazendo grandes esforços, que realmente devem ser destacados, porque são exemplos para a sociedade global e estão dentro de um país que não está facilitando as coisas para eles.

Mas eu também conheço países onde as coisas estão mais estruturadas para que a sustentabilidade seja desenvolvida e dentro desses países há alguns dos piores cenários. Eu acho que há muitos exemplos bonitos, importantes e ótimos na América Latina para sermos positivos sobre a evolução do turismo sustentável e há, é claro, em todos os países, os casos que podem ser bons para usarmos como exemplo do que não deve ser feito.

3) Qual você acredita que é o papel do setor privado na criação de um destino sustentável?

Eu acredito que o setor privado é aquele que realmente move a roda. O setor privado organizado é o principal e mais importante stakeholder para promover o desenvolvimento sustentável de um destino. Eles (o setor privado) são os que sofrem. Eles são os que estavam aqui antes das ONGs e espero que permaneçam após as ONGs. Eles estavam aqui antes do atual governo e estarão aqui quando o governo mudar. Eles são fundamentais e são os que realmente vivem da indústria, entendem as necessidades da indústria. Então, se pudermos ter um setor privado forte trabalhando pela da sustentabilidade, no final acabaremos tendo outros stakeholders também preocupados com o desenvolvimento sustentável dos destinos.

Penso que as políticas de turismo sustentável mais eficazes para um destino geralmente vêm de uma proposta feita por indivíduos diretamente envolvidos com o setor privado. São as pessoas que realmente fazem o setor de turismo funcionar. De qualquer forma, eles não podem fazer isso sozinhos. No processo de apoiar o desenvolvimento sustentável de um destino, eles precisam se envolver e colaborar com outros stakeholders principais, como a comunidade local, outras indústrias de apoio que fornecem bens ou materiais e, claro, o governo. Mas o governo deve ser aquele que regulamenta e fornece as ferramentas para que os planos possam ser realmente desenvolvidos pelo setor privado e pela comunidade local.

4) Temos visto muitos resorts investindo em boas práticas nos últimos anos. Você acredita que a ideia de que os resorts sejam grandes vilões do turismo sustentável está em colapso?

Eu acredito que o conceito de sustentabilidade é o conceito mais inclusivo que foi criado na história da humanidade. É um conceito que permite a todos se converterem a uma filosofia, a uma prática que promove a conservação ambiental, o desenvolvimento social, a conservação da cultura e o desenvolvimento econômico. O conceito de turismo sustentável pode alcançar a todos, independentemente de você estar no centro da cidade de São Paulo ou em alguma área acima do Rio Negro, no Amazonas.

Os resorts certamente têm uma grande possibilidade de se tornarem agentes de mudança para seus destinos. De forma alguma podemos pensar que são empresas que não têm esperança ou que não podem se converter ao modelo de negócios sustentável. Pelo contrário, temos muitos excelentes exemplos de resorts que se comprometeram com essa ideia e conseguiram impactos importantes em seus destinos. Devemos esperar deles uma empresa disposta a conservar o ambiente natural em que estão localizados, comprometida em reduzir suas emissões e seus resíduos, comprometida em gerar emprego de qualidade para milhares de pessoas.

5) Quais são os benefícios de participar de um programa de certificação?

Nos meus 18 anos trabalhando em certificação em turismo, acho que sempre disse que os benefícios não são os de se envolver em um programa de certificação. Os benefícios vêm de se envolver no desenvolvimento do turismo sustentável. O que é, em última análise, o qualquer programa de certificação deve promover e encorajar: a adoção real da filosofia do turismo sustentável. Portanto, os benefícios em termos gerais, devem estar relacionados ao fato de que um programa de certificação pode ajudá-lo a organizar e estruturar um sistema que garanta que a filosofia do turismo sustentável se torne parte do negócio. Eu acho que vai além de ser certificado. Deve ser um compromisso com o desenvolvimento sustentável.

Além disso, a maioria das empresas procura uma certificação acreditando que ela proporcionará reputação e repercussão de marketing. Mas a maioria das certificações não têm reconhecimento de mercado quando se trata de sua marca e isso é algo chave se você estiver selecionando a certificação apenas para se apresentar ao mercado e ao público. As empresas devem perguntar: “Este é um programa que o mercado realmente conhece?”.

As pessoas gostam de dizer que os benefícios de se certificar são aprender como economizar água, economizar energia, e que haverá economias econômicas, que você terá uma melhor relação com a comunidade, que você melhorará sua qualidade; e sim, todas essas coisas acontecerão. Mas elas não acontecem apenas por se certificar. Ao contrário, você se certifica porque você já está fazendo isso. Uma empresa é certificada porque já está trabalhando de forma sustentável. É claro que as certificações fornecerão às empresas orientação e feedback, mostrarão coisas novas e compartilharão informações que as ajudem a melhorar constantemente a maneira como elas funcionam. A chave é que as certificações nos ajudam a demonstrar quem são os que estão realmente comprometidos.

6) Onde você acredita estar a chave para o desenvolvimento do turismo sustentável – na oferta ou na demanda?

Penso que, se virmos do ponto de vista filosófico, o compromisso com o desenvolvimento sustentável deveria ser uma obrigação social. Nós, como membros de uma sociedade global, deveríamos nos comprometer a viver de forma mais sustentável. Todos nós. Não importa o que fazemos. Se olharmos as coisas pela perspectiva econômica, a demanda sempre foi o motor de mudança no mercado. Quando os clientes realmente exigem algo é quando você vê toda a indústria mudar. Mas, por outro lado, a inovação tem sido uma das maneiras pelas quais o mundo tem mudado as expectativas do consumidor. Quando alguém se atreve a ser diferente e se atreve a fazer algo diferente é na verdade quando as coisas novas acontecem e o mercado começa a aprender com isso. Então, acho que é um círculo relacionado ao compromisso, à inovação, à educação e, claro, à demanda do mercado.

Mais sobre a Conferência 2017 do GSTC: https://www.gstcouncil.org/gstc2017aysen/

Sobre o Autor

Ana Duék

Jornalista com Mestrado em Gestão de Turismo e Hospitalidade pela Middlesex University (Londres), cursando MBA em Marketing Digital pela FGV. Acredita que as viagens podem ajudar a formar melhores pessoas e lugares para se viver! Cada um pode encontrar o seu caminho.